Elétricos Usados Junho 2026: BYD, GWM e o Colapso Estrutural do Valor de Revenda
Este é o primeiro de uma série mensal dedicada exclusivamente ao mercado de veículos elétricos usados no Brasil. O motivo é simples: os dados do IBV Auto de junho de 2026 confirmam que a depreciação de elétricos segue em patamar estrutural, muito acima da média de combustão. Um elétrico 2023 comprado zero por R$ 250 mil vale hoje cerca de R$ 135 mil. Um combustão equivalente da mesma safra vale R$ 200 mil. O choque estrutural do segmento elétrico brasileiro merece uma leitura própria.
O panorama de junho: elétrico piorou, híbrido estável
A foto agregada do BV em junho de 2026 mostra:
- Elétricos 2023: -46,1% (era -45,6% em maio)
- Elétricos 2022: -50,5% (era -49,3%)
- Híbridos 2023: -26,1% (estável)
- Híbridos 2022: -19,3% (estável)
- Combustão 2023: -19,6% (estável)
- Combustão 2022: -13,2% (estável)
Dois padrões relevantes:
- Elétricos continuam piorando. Enquanto híbridos e combustão estabilizaram em 2026, elétricos seguem em curva de queda mês a mês. É a única categoria que ainda perde valor de forma incremental depois de 3 anos de uso.
- A distância elétrico-combustão aumentou. Em maio, um elétrico 2023 valia proporcionalmente 56% do combustão equivalente. Em junho, 55%. Diferença sutil no mês, mas o vetor é claro.

Por que elétrico deprecia mais? Cinco fatores
1. Preço do zero cai rápido. Enquanto o valor de um combustão novo se mantém, o elétrico novo perde preço todo trimestre. BYD Dolphin lançou em 2023 por R$ 149 mil. Em 2024 caiu pra R$ 129 mil. Em 2025, versão base pra R$ 119 mil. Quem comprou em 2023 já viu o novo custar 20% menos, então o seminovo do mesmo modelo obrigatoriamente vale menos.
2. Tecnologia evolui rápido. Um elétrico 2023 tem geralmente 20% menos autonomia real e 30-40% mais tempo de recarga rápida que a versão 2026 do mesmo modelo. Comprador de usado enxerga essa diferença e desconta.
3. Bateria como incógnita. A saúde da bateria (SoH) só é auditável por scanner especializado, e o preço de reposição pode chegar a R$ 80-120 mil dependendo do modelo. Comprador de usado precifica esse risco e desconta significativamente.
4. Marcas chinesas em disputa agressiva. BYD, GWM e Chery estão em fase de conquista de mercado no Brasil. Preços baixos e lançamentos frequentes pressionam o valor da geração anterior.
5. Volume ainda pequeno no seminovo. Poucos compradores no mercado secundário de elétrico significa preços puxados pra baixo pra fechar negócio, mesmo com veículo em bom estado.
Marcas chinesas: quem preserva mais valor
O IBV agrega elétricos sem separar por marca, mas o padrão observado no mercado de seminovos brasileiro em junho de 2026 permite uma leitura direcional. O ranking abaixo é qualitativo, baseado em cruzamento de anúncios de portais (Webmotors, OLX, Mercado Livre) com valor original de tabela:
Melhor retenção de valor (chinesas):
- BYD Dolphin. Modelo de entrada com volume relevante no seminovo. Preserva relativamente bem por causa da demanda constante em faixa acessível.
- BYD Song Plus / Yuan Plus. SUVs médios da BYD com boa aceitação. Perda ainda alta (30-35%), mas menor que da média de elétricos.
Retenção mediana:
- GWM Ora 03. Elétrico compacto premium. Retém razoavelmente pelo posicionamento distintivo, mas volume baixo cria variância.
- Chery Tiggo 8 PHEV. Híbrido plug-in, comportamento próximo ao de híbrido puro (melhor que elétrico puro).
Pior retenção:
- JAC E-JS1 e iEV. Modelos mais antigos, tecnologia defasada, redução da rede de assistência da JAC no Brasil. Depreciação acumulada frequentemente acima de 50%.
- BYD Tan (2022-2023). SUV grande importado, preço original alto (R$ 500k+), impacto forte da queda de preço do novo. Perda proporcional entre as maiores do segmento.

Marcas europeias premium: retenção acima da média
Elétricos premium europeus (Volvo, BMW, Audi) preservam valor melhor que a média chinesa, mas ainda depreciam bem acima de combustão equivalente. Fatores:
Volvo XC40 Recharge / EX40. Marca com percepção premium consolidada, plataforma compartilhada com a versão a combustão (facilita revenda). Depreciação real observada em anúncios: 35-45% em 3 anos.
BMW iX3 / i4. Volume pequeno mas nicho fiel. Bateria da BMW tem reputação boa. Depreciação 40-50%.
Porsche Taycan. Volume ínfimo no Brasil. Ainda considerado premium-premium e retém melhor. Menor amostra pra generalizar.
O padrão claro: quanto mais premium o posicionamento e mais estável a marca, maior a retenção. Mas nenhum elétrico no Brasil preserva valor como um combustão premium equivalente. Um Mercedes GLA 2023 combustão perdeu 25-30%. Um EQA 2023 elétrico perdeu 40-45%.
Comprando elétrico usado: janela cada vez melhor
A outra face da moeda da depreciação estrutural: para quem está comprando, é a melhor janela do mercado brasileiro de elétricos.
Um BYD Dolphin 2023 vendido por R$ 90 mil hoje custou R$ 149 mil zero. Diferença de R$ 60 mil em pouco mais de 2 anos de uso. Se você faz 15 mil km por ano em cidade, o custo/km do usado é significativamente menor que financiar um zero mesmo levando em conta a menor autonomia.
Recomendações práticas para comprar elétrico usado em 2026:
- Auditar bateria antes de comprar. SoH abaixo de 85% é sinal amarelo. Concessionárias autorizadas fazem esse teste (BYD, Volvo, GWM). Custo baixo, diagnóstico crítico.
- Preferir modelos com plataforma compartilhada. Volvo XC40 Recharge, Peugeot e-208 e outros que dividem plataforma com versão combustão tendem a ter peças e manutenção mais acessíveis.
- Confirmar garantia da bateria. Muitas marcas dão 8 anos de garantia na bateria. Se o veículo tem 2-3 anos, sobra bastante cobertura. Verificar transferência para segundo proprietário.
- Rodar em condições reais. Autonomia declarada NUNCA é a autonomia real. Faça test drive de pelo menos 40 km com ar condicionado ligado.
- Consultar o valor FIPE atualizado pela placa. O preço médio de mercado do modelo/ano específico ajuda a negociar. Use nossa consulta gratuita pra ter esse dado antes de fechar.
Vendendo elétrico usado: urgência mantida
Se você comprou um elétrico entre 2022 e 2024, o cenário continua sendo o mesmo desde o início do ano: quanto antes vender, melhor. Cada mês adicional de espera implica em nova queda de preço, provocada pela combinação de:
- Lançamentos mensais de novos modelos elétricos mais baratos e com mais autonomia
- Estratégia agressiva de precificação da BYD, GWM e Chery que arrasta a média de preço do segmento pra baixo
- Envelhecimento natural da bateria que reduz o valor percebido
- Redução de incentivos fiscais para importados que já rebaixou custo de aquisição do novo
O ideal, se possível: negociar troca por outro elétrico novo. Nesse caso, o "prejuízo" na revenda é parcialmente absorvido pela vantagem do preço do zero atual e pela permanência no ecossistema (garantia, rede de recarga, familiaridade com o produto).
O que esperar dos próximos meses
Nossa previsão pros próximos 90 dias: o patamar de -46% da safra 2023 deve estabilizar ou piorar marginalmente (chegar próximo a -48% até setembro). Motivo: continuidade dos lançamentos BYD (Han restyling, Dolphin Mini com preço abaixo de R$ 100k) e das promoções agressivas de fim de trimestre. Compradores devem esperar mais 60-90 dias antes de fechar negócio. Vendedores devem acelerar a decisão. Para uma leitura do mercado inteiro (não só elétricos), veja a análise completa do IBV Auto de junho.
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